Sob nova direção
Os donos da economia mundial penduraram hoje na porta de entrada (que nem existe) a placa: sob nova direção.
Pois é. O tal de G20, formado pelas 21 maiores economias do planeta e mais a União Europeia, assume formalmente o papel de coordenador da economia mundial, substituindo o G8, o clube dos sete países ricos a que a Rússia foi agregada.
Muito bem. É a chamada "realpolitik": a realidade havia de há muito atropelado o G8 e o sentido comum mais raso já pedia uma nova gerência. Uma nova gerência, a rigor, já delineada com toda a clareza na reunião do G8 ampliado de L'Aquila, na Itália, em julho.
Decretar retoricamente uma nova gerência era, portanto, a parte fácil. Agora vem o mais difícil que é, como adoram dizer os norte-americanos, "deliver" --entregar resultados.
O G20 não tem dentes. Ou seja, não tem poder para impor suas eventuais decisões a seus próprios integrantes, quanto mais para os demais países.
Exemplo objetivo e imediato: a tarefa que o grupo tem pela frente é discutir e encontrar saídas para os desequilíbrios que já existiam na economia global antes da eclosão da crise. Desequilíbrio que, para resumir, se dava pelo consumo excessivo dos Estados Unidos e pela voracidade exportadora da China, embora não apenas dela.
Seria uma questão acadêmica, não fosse pelo detalhe de que o presidente Barack Obama já avisou uma e outra vez, desde o G8 ampliado de L'Aquila, que o mundo não deve contar com o consumidor norte-americano como motor do crescimento econômico, pelas avarias por ele sofrido com a crise.
Reequilibrar o jogo passa, portanto, a ser uma necessidade, não uma mera preocupação acadêmica.
A pergunta seguinte inevitável é esta: como é que o G20 poderá obrigar, digamos, a China a valorizar a sua moeda, para dificultar exportações e facilitar importações?
Mas sobram também perguntas para o Brasil: até agora, o país foi demandante. Pediu coisas, inclusive a entronização do G20, e obteve várias delas (uma melhoria no peso dos emergentes no FMI, por exemplo).
Com isso, passou a ser um cachorro grande --ou quase. Cachorros grandes, no jogo global, não tem apenas bônus. Têm, por exemplo, o ônus de deixar de fazer apenas pleitos para propor soluções, mesmo aquelas que eventualmente representem sacrifícios.
Ah, é bom dizer que esse novo papel não é apenas tarefa do governo. É da sociedade ou, ao menos, da sociedade organizada, empresários, sindicalistas, dirigentes políticos, da academia, do jornalismo. Mais do que antes, urge agora deixar de ser "caipira" como o então presidente Fernando Henrique Cardoso definiu o país --e tinha razão.
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna diária na página 2 da Folha e é autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e "O Que é Jornalismo".E-mail: crossi@uol.com.br
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